Com que então queres ser um motovlogger de sucesso? Pois vieste ao local certo! Ninguém melhor do que eu para te explicar como é que se constrói um império de seguidores fieis e ter o nome proclamado aos céus como o próximo Messias das duas rodas! Muitos têm procurado atingir a admiração dos motociclointernautas (tenho a patente desta palavra), mas poucos conseguem um sucesso tão espetacular como o do Mig76.
Em dois anos de canal conquistei mais de mil almas perdidas em busca da salvação e foi aqui, neste recanto escuro e bolorento do YouTube, que a vieram encontrar. Como sou um dos maiores tubarões do motovlog do meu bairro social, e talvez da própria Feira de Enchidos de Beja, vou partilhar as cinco regras fundamentais para atingir o estrelato dos motovloggers e viver luxuosamente à conta de um passatempo. Bem vindo ao paraíso dos preguiçosos!
Regra n.º 1: Ser coerente.
Nenhum canal deve ter um novo tipo de conteúdo em cada vídeo. Após encontrar um determinado conteúdo de que se goste muito, é proveitoso manter o rumo num mesmo estilo e enriquecê-lo de modo gradual com mudanças de pormenor. Deste modo, constrói-se um personagem (ou vários, no caso dos motovloggers que têm múltiplas personalidades) e uma narrativa contínua ao longo de sucessivos vídeos. Isto irá manter interessados todos aqueles que apreciem o conteúdo e fará com que os recém-chegados vão ver o que foi feito antes.
A coerência não significa que se seja monolítico. De vez em quando deve-se pular a cerca e fazer algo novo, quanto mais não seja para “testar o mercado”. Mas é sempre de evitar uma rutura irreversível com tudo aquilo que se vinha fazendo e repentinamente adotar um estilo completamente distinto. Isso fará com que muitos subscritores desistam pelo caminho.
A coerência aplica-se também à estética do canal. Se olharmos para a evolução de certas imagens de marca, verificamos que há uma identidade que permanece, numa lógica de reforço da própria identidade, do conceito que lhe está subjacente e do seu fácil reconhecimento. Portanto, depois de encontrar aquele conteúdo jeitoso e a forma que mais nos agrade a nós e aos nossos subscritores, o ideal é manter essas fórmulas, modificando-as com parcimónia ao longo do tempo.
Convém que a coerência também se traduza na regularidade, pelo que é importante manter um caudal constante de vídeos. Deste modo, o pequeno grupo de subscritores irá transformar-se lenta e sustentadamente num grupo não tão pequeno.
Regra n.º 2: Não ceder ao clickbait.
A melhor estratégia para agarrar subscritores interessados e interessantes no universo do motovlog não passa pelo clickbait descarado. A não ser que se pretenda conquistar manadas de pré-adolescentes que salivam com um decote generoso ou um cu arrebitado. Ou então, caso se queira chamar a atenção de psicopatas com a promessa de sangue num quase acidente mortal que, afinal, tem tanto de perigoso como pisar num Lego. Pensando bem, pisar num Lego poderá causar bastante dano, mas adiante.
Por vezes torna-se difícil perceber o que a promessa do clickbait tem a ver com o conteúdo do vídeo, e há poucas coisas mais eficazes para quebrar a confiança do público do que prometer algo que não se dá (a não ser que se seja político). Por outro lado, o clickbait responde à satisfação de um impulso, oferecendo a resposta imediata a uma necessidade superficial e breve.
Numa época em que o efémero é cada vez mais apelativo, é preciso que se cultive uma certa sofisticação, ou, no mínimo, que não se minta descaradamente aos subscritores, pois o karma não dorme e volta sob a forma de haters que nos vêm morder o rabo.
Regra n.º 3: Ser genuíno.
Uma vez que o ser humano distingue facilmente a ficção da realidade, de pouco serve tentar parecer o que não se é. Felizmente, conheço muitos canais de motovlog em que os seus protagonistas são muito aquilo que parecem. E outros tantos canais em que não conhecendo os seus protagonistas pessoalmente, tenho sérias dúvidas de que estejam a simular o que quer que seja.
A não ser que sejas o Marlon Brando do motovlog, assumir um comportamento artificial ou forçado perante uma audiência tem tanto de contra-intuitivo como de embaraçoso, exceto se o público-alvo tiver a sofisticação intelectual dos babuínos.
Queres rir de alguma coisa que acontece inesperadamente? Então ri-te, mas não mais do que farias com a câmara desligada. Queres protestar com aquele condutor agarrado ao telemóvel? Então protesta na exata medida em que o farias no teu dia-a-dia. Não faças circo para o vídeo.
Há uma linha muito larga que separa a verdade da parvoíce, e é simplesmente parvo manter um fluxo constante de hipérboles comportamentais ou oscilações bipolares do humor. De nada serve andar aos saltos apalhaçados num momento e simular uma quase fatalidade rodoviária logo de seguida. Um sorriso Colgate enquanto se olha e fala fixamente para a câmara, é desconfortável para o observador. Declamar um discurso em que não se acredita é transparente. E há poucas coisas mais constrangedoras do que maus argumentos protagonizados por maus fingidores.
Regra n.º 4: Não mendigar seguidores.
Um dos piores erros que se pode cometer é a permuta de subscrições com outros canais do YouTube. Deixar comentários noutros canais a pedir que nos visitem e subscrevam para “dar aquela força”, é uma subserviência que faz com que os seguidores sejam fictícios. A inflação de um canal que não se traduza em incrementos de visualizações também não aumentará o tempo de visualização.
E uma vez que o que realmente importa são as visualizações, de nada vale que os nossos muitos subscritores não sejam verdadeiros apreciadores dos nossos conteúdos. Ou seja, o crescimento que aconteça por conta de pedidos explícitos de subscrição é artificial. Devemos conquistar um público apreciador das magníficas iguarias que temos para distribuir a uma plateia ávida de bons conteúdos.
Do mesmo modo, também é inútil fazer publicidade em páginas de divulgação do YouTube nas redes sociais. Os canais do YouTube são concorrenciais entre si, portanto de pouco vale divulgar o nosso produto à concorrência. A divulgação deve ser feita junto do consumidor.
Assim, as formas de conquistar o apreço de outros criadores são: visitar outros canais e fazer notar a presença apenas naqueles de que se gosta genuinamente; propor parcerias, investindo no networking; divulgar canais com qualidade mas de menor dimensão, apoiando-os; interagir não apenas com canais dedicados ao motociclismo, mas também com canais com outros tipos de conteúdos. Em resumo, fazer por obter resultados através do respeito mútuo entre criadores de conteúdos, evitando ser pedinchão.
Regra n.º 5: Ser único.
Se é certo que o objetivo de um canal de motovlog é criar conteúdos únicos para um público com interesses específicos, é também certo que esse público procurará acompanhar o maior número possível de canais com os mesmos conteúdos. No caso específico dos motovlogs, existe um conjunto reduzido de canais, pelo que facilmente os seguidores conseguirão distinguir as imitações do que verdadeiramente original se vai fazendo.
Embora seja aceitável que se obtenha inspiração num ou noutro canal similar, é desejável que se construa uma identidade própria, sem olhar tanto ao que já se faz, mas ao que ainda não se fez e que simultaneamente seja do nosso agrado. Se fizermos algo completamente novo e que nos agrade, será certamente do agrado de outros. O produto contrafeito rebenta sempre pela costura. Portanto, devemos procurar as fórmulas da originalidade dentro da nossa cabeça e não na dos outros. É preferível estar do lado dos imitados do que dos imitadores.
Conclusão: Se calhar é melhor ignorares este vídeo.
Como este canal não é um exemplo de sucesso, é provável que estas cinco regras sejam justamente aquelas que não ajudam os canais a crescer. No caso do Mig76, o tempo dirá. Mas acredito que o respeito por estas regras poderia fazer do Youtube um sítio mais higiénico e com um ar mais respirável. Acredito que se mais criadores de conteúdos respeitassem um certo conjunto de princípios éticos, os meios alternativos de informação e comunicação seriam muito mais úteis à sociedade.
Uma vez que os media tradicionais já sucumbiram há muito tempo à parolice e à desinformação, as redes sociais, entre as quais se inclui o YouTube, poderiam bem ser contextos democráticos de emancipação cultural. Todavia, as redes sociais parecem ser cada vez mais instrumentos de alienação cultural e contextos propícios ao culto da superficialidade. No caso específico do YouTube, esta plataforma parece transformar-se numa colossal feira de vaidades e fingimentos, imitações de imitações, em que o verdadeiramente original e único se dilui numa infinitude de reiterados vazios.


